O CONSULTADOR NO SÉCULO XXI

Sou, com orgulho, Contabilista Certificado (CC) desde 1996, data em que, a então, Associação dos Técnicos Oficiais de Contas me atribuiu o respetivo número. Ao longo destes quase 25 anos de carreira tenho assistido de perto à evolução da profissão e a todas as mutações que temos vivido na forma de gerir as empresas, na forma como estas se relacionam entre si, no modo como nós profissionais nos relacionamos entre nós e em especial na forma como todos nos relacionamos com (atrevo-me a dizer) o principal stakeholder da informação financeira, o Estado.

Atentos ao Art.º 10.º do Estatuto da Ordem dos Contabilista Certificados* verificamos que a legislação nos atribui competências exclusivas, para as seguintes atividades:

  • “Planificar, organizar e coordenar a execução da contabilidade das entidades, públicas ou privadas, que possuam ou que devam possuir contabilidade organizada segundo os planos de contas oficialmente aplicáveis ou o sistema de normalização contabilística, conforme o caso, respeitando as normas legais, os princípios contabilísticos vigentes e as orientações das entidades com competências em matéria de normalização contabilística;
  • Assumir a responsabilidade pela regularidade técnica, nas áreas contabilística e fiscal, das entidades referidas na alínea anterior;
  • Assinar, conjuntamente com o representante legal das entidades referidas na alínea a), as respetivas demonstrações financeiras e declarações fiscais, fazendo prova da sua qualidade, nos termos e condições definidos pela Ordem, sem prejuízo da competência e das responsabilidades cometidas pela lei comercial e fiscal aos respetivos órgãos.”

Mas também, embora sem caráter de exclusividade, outras atribuições:

  • “Exercer funções de consultoria nas áreas da contabilidade e da fiscalidade;
  • Intervir, em representação dos sujeitos passivos por cujas contabilidades sejam responsáveis, na fase graciosa do procedimento tributário e no processo tributário, até ao limite a partir do qual, nos termos legais, é obrigatória a constituição de advogado, no âmbito de questões relacionadas com as suas competências específicas;
  • Desempenhar quaisquer outras funções definidas por lei, relacionadas com o exercício das respetivas funções, designadamente as de perito nomeado pelos tribunais ou por outras entidades públicas ou privadas.”

Daqui podemos concluir que de acordo com a Lei o CC tem um papel relevante com competências e responsabilidades exclusivas nas áreas da contabilidade e fiscalidade, podendo a partir do seu know-how e expertise desenvolver atividades como Consultor.

Mas como é que a sociedade nos vê?

Comecemos pelo princípio, o significado** :

. Contabilista [nome de 2 géneros] 1. pessoa versada em contabilidade
2. guarda-livros perito

. Consultor [nome masculino] 1. conselheiro
2. perito em determinado assunto adstrito a algum organismo ou empresa, para proporcionar consultas sempre que se levante alguma dúvida sobre matéria da sua especialidade

Atente-se, pois, na definição de Contabilista, é alguém que domina as questões contabilísticas (pois claro, quem mais!), mas que também é guarda-livros perito, entendendo-se este último pela pessoa encarregada de fazer a escrita de uma empresa. O termo “escrita” transporta-nos para o universo histórico das funções do Contabilista, responsável por manter um conjunto completo e organizado de livros (comerciais) da empresa. O ciclo da contabilidade gira em torno do registo cronológico (e geralmente diário) das transações financeiras e não financeiras, bem como de outros acontecimentos num determinado momento.

Por sua vez, o consultor surge como o perito em determinado assunto, entenda-se aqui para os devidos efeitos nas áreas da contabilidade e fiscalidade, capaz de proporcionar conselhos (o conselheiro) a partir da análise que faz dos elementos que ele próprio gerou (enquanto Contabilista) ou que lhe foram disponibilizados.

É, pois, crítico para as empresas manterem os seus registos contabilísticos, a sua escrita atualizada, de forma a que depois se possam extrair os elementos capazes de categorizar e interpretar os dados financeiros históricos, mas também e mais importante ainda, capazes de criar a possibilidade de se fazer análises preditivas, onde possam ser equacionados potenciais cenários.

Considerando os avanços tecnológicos já registados e a enorme transformação digital que se avizinha para a nossa profissão, estou em crer que o segredo do sucesso do Contabilista Certificado irá centrar-se na forma como cada um de nós vai fazer a transição do paradigma do Contabilista para o paradigma do Consultor. Ou seja, o Contabilista tem de deixar de se centrar apenas no registo histórico, porque essa função de registo de transações vai ser cada vez mais automática e robotizada, passando a centrar o seu foco na entrega de resultados e primordialmente na análise dos dados obtidos, tendo uma preocupação com o passado, mas, e acima de tudo com a criação de cenários futuros, procurando sempre estar ao lado do empresário na tomada de decisão, ser o seu conselheiro. Com isto, vamos finalmente conseguir alterar o paradigma do principal stakeholder das empresas deixando o Estado de ser o principal passando a dividir as atenções com os restantes: detentores de capital, financiadores, fornecedores, clientes, gestores, colaboradores, entre outros.

Desta forma o Contabilista Certificado (Consultor das empresas no Século XXI) deixará de ser visto nas organizações como alguém que só está focado na imagem do retrovisor (do passado) e passará a ser visto como alguém que está focado no GPS (no futuro) da empresa, ajudando, com o seu trabalho, o seu conhecimento, os gestores na tomada de decisão.

* Decreto-Lei n.º 452/99, de 5 de novembro, alterado pelo Decreto-Lei n.º 310/2009, de 26 de outubro, com as alterações introduzidas pela Leis n.º 139/2015, de 7 de setembro, e n.º 119/2019, de 18 de setembro.

** “Dicionário da Língua Portuguesa – Dicionários Editora”, Porto Editora, 2012.

 

Domingos CASCAIS
STRATEGY ADVISOR
domingos.cascais@viseeon.com